O futebol de rua tem uma linguagem própria, tão rica que daria um dicionário inteiro. Selecionámos os termos que vais mesmo ouvir num campo de base — uns técnicos, outros nem por isso, todos cheios de personalidade.
O básico que toda a gente grita
Caneta (ou túnel) — passar a bola por entre as pernas do adversário. A maior humilhação do bairro. Provoca gritos de «caneeeeta!» que se ouvem a três ruas de distância.
Chapéu — levantar a bola por cima do adversário e ir buscá-la do outro lado. Se for por cima do guarda-redes para fazer golo, sobe de categoria automaticamente.
Sete — golo no ângulo, onde a barra encontra o poste, no sítio impossível. «Foi no sete!» é elogio máximo.
Frango — erro caricato do guarda-redes, daqueles em que a bola lhe passa por baixo das mãos ou das pernas. Marca o jogador para o resto do dia (e, às vezes, da vida).
Para quem se quer armar em craque
Meiinha — toque subtil com o lado de dentro do pé para contornar o adversário. Elegância pura.
Lençol — passar a bola por cima do adversário e recuperá-la em corrida, normalmente em velocidade. Primo direto do chapéu, mas mais atrevido.
Rabona — chutar cruzando a perna por trás da outra. Noventa por cento das vezes corre mal; os outros dez por cento entram para a história do campo.
Bicicleta (ou pontapé de bicicleta) — rematar de costas para a baliza, com o corpo no ar. Risco altíssimo de aterrar no cimento. Glória garantida se entrar.
Peixinho — cabecear em mergulho, rente ao chão. Coragem obrigatória.
O vocabulário do campo pelado
Pelada — o jogo informal entre amigos, sem árbitro e sem hora para acabar. A célula-mãe de todo o futebol de base.
Baliza de pedras — a estrutura arquitetónica mais comum do futebol de rua. Largura definida por acordo verbal e altura por imaginação.
Golo de placa — golo em que a bola bate primeiro no poste, na pedra ou no muro antes de entrar. Sabe sempre melhor.
Pisão — pisar a bola para mudar de direção e deixar o adversário a olhar. Simples, eficaz, estiloso.
Próximo golo ganha — a regra do fim do dia, quando a luz acaba e alguém é chamado para jantar. Transforma uma pelada qualquer numa final do Mundial.
Dica de quem percebe: num jogo de base, festeje o golo bonito mesmo que seja do adversário. No futebol de bairro, o talento aplaude-se — é assim que se ganha o respeito da bancada (mesmo que a bancada seja um murinho com cinco pessoas sentadas).
Agora que já fala a língua, só falta o jogo. Espreite a agenda Relvado, escolha uma pelada, um torneio de rua ou um jogo escolar perto de si e vá ouvir estes gritos ao vivo. A entrada é quase sempre livre — e o espetáculo, garantido.